Percepção 17 – Manhã de 23/03/2013

Depois de mais uma madrugada chuvosa, o dia amanheceu nublado e com a promessa de mau tempo. A paisagem é a mesma tanto no quadrante sudeste quanto no sudoeste, passando pelo sul. Céu cinzento e quase nenhuma brisa. Ar parado no nível do mar. Temperatura de 25,9C, às seis e quarenta e quatro dessa quarta manhã de outono.

A passarada está discreta. Cantos e trinados emitidos com economia. Como se a natureza hesitasse entre despertar e voltar a dormir, com o céu ainda escuro, ao início da manhã. Reflito sobre os ciclos de ascensão e declínio, de movimento e de inércia… Meu amigo bem-te-vi marca seu ponto. Seja bem-vindo!

Na meditação de hoje, de olhos abertos, olhar suave nas folhagens quase sem movimento, pela brisa muito suave. Da leitura e reflexões do I Ching, inspiração para um breve haicai:

atividade
ascensão e declínio…
ah! e repouso!

Eduardo Leal
Fotos de Eduardo Leal

Registro de temperatura

Quadrante sudeste

Ao sul do céu

Quadrante sudoeste

Percepção 14 – Manhã de 20/03/2013

A chuva intermitente, que se iniciou na noite de ontem, se estendeu pela madrugada. E o dia amanheceu novamente com as ruas e calçadas molhadas, mas com menos poças d´água do que ontem. O parapeito da varanda apresentava apenas algumas gotas de chuva, no momento em que um vizinho saía para o trabalho. A paisagem é a mesma tanto no quadrante sudeste quanto no sudoeste, passando pelo sul. Nuvens cinzentas por toda parte e nenhuma brisa, ar parado no nível do mar. Nuvens de altitude movem-se, lentamente, de leste para oeste. Prognóstico de mais um dia com grande nebulosidade, tarde abafada e possibilidade de chuva fraca. Temperatura de 22,8C, às seis e quatorze dessa primeira manhã de outono, estação que começa a partir das oito horas e quatro minutos segundo os especialistas.

O outono é uma das minhas épocas preferidas do ano, junto com a primavera. Temperaturas amenas e céu claro, em grande parte do dia e da noite. Que assim seja!

A passarada, com ausência de brisa, advinha o tempo do alto das árvores e conversa com a Natureza em sua linguagem sonora. Meu amigo bem-te-vi chegou bem cedo e me observa à distância, do alto da amendoeira. Seu canto me encanta. Um pássaro bem pequeno de cor marrom escuro e trinado complexo, cujo nome ainda desconheço, faz sua casa na luminária da pracinha. Observo que entra e sai, com sua companheira, várias vezes durante as primeiras horas da manhã. Haverá algum filhote lá dentro?

Na meditação de hoje, de olhos abertos, olhar suave nas folhagens sem movimento, pela ausência de vento. Da leitura e reflexões do I Ching, que retomei a partir de ontem, inspiração para um breve haicai:

o que responde
não é senão aquele
que se pergunta…

Eduardo Leal
Fotos de Eduardo Leal

Registro de temperatura

Parapeito molhado

Saindo para o trabalho

Quadrante sudeste

Ao sul do céu

Quadrante sudoeste

Bem-te-vi na amendoeira

Ninho na luminária

Percepção 3 – Tarde de 11/03/2013

Ainda pela manhã, antes de sair de casa, liguei para minha cliente para me certificar do nosso compromisso de hoje. Em boa hora, pois ela propôs vir ao meu encontro, no final da tarde, já que tinha um compromisso no Rio de Janeiro, poupando-me de uma pequena viagem até a cidade onde fica a sede da sua empresa.

Pude então realizar outras tarefas no meu Escritório Doméstico, com direito a pequenas pausas para recarga de baterias, no meu observatório na varanda.

O céu permaneceu azul, mas a nebulosidade aumentou. A tarde foi bastante sossegada, com pouco movimento nas redondezas. Em determinado momento, parecia que o único ser movente era uma ave silenciosa que cruzava o espaço, sem deixar rastros. Cliquei naquele instante, lembrando imediatamente das palavras de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, em “O Guardador de Rebanhos“:

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rastro,
que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

Sempre que reflito sobre o tema da impermanência, essas palavras ecoam com força na minha mente. Especialmente quando, antes ou depois, constato o rastro deixado pela cachorrada da vizinhança, na grama da pracinha…

Voltei à varanda, no fim da tarde, para ver o por do sol.

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal

Vôo silencioso

Tapete de nuvens

Por do sol